Pisca, reveste ao teu, olhar divino, vida, devia estar.
Ao caminhar, prendestes tu, no canto da sinhá, bolo e broa de miracolá.
Cavalo ao ventar, mato fresco a buzinar, roda que balança, do céu se poem a levar.
Segura a menina-que-vive-por-estas-matas, porque se ela voar, não há de voltar.
Sete mares ao se ausentar, costuma-se banhar, por águas claras de moço miá.
Vem cá menina, diz teu nome aos homens, mostre a eles, que sabe capinar.
Do amor ao chão de se plantar.
Ao doar-me a vida, me encorajei a dançar em cacos de vidro.
Parecia mesmo uma música, sonora ao som de se tocar, minha dengosa vida que ao se alentar me encaminhava ao buscar. Caleidescópio, um ”Tum-tunti-tum” que meus olhos fazem ao piscar, diferenças que só de acordar me deixo estar. Meus pés que não pisam, descascam o chão, começam a imitar os sons de um soar metamórfico de rimas minhas, manias mantidas, casinha aquecida. A Gabriella de giz, que antes de pó, se fez assim, dançante palavras que por ela pernamboleiam, cantam Tiê e Caetano, velosamente ao meu Mereço. Ao te Mereço. Como quereres. Do quero sim e quero não. Menina-moça-mulher bordada de Café, que vida é essa, que dentro de mim se perde ao me ver encaixar-me em tantas idas e vindas. Perigosa mania de dançar sem olhar, aos cacos da vida, se dispõe a pisar. Quando a verdade, é que Gabriella de giz não teme aos cacos. Teme em não encontrá-los pelo chão. Ela que dançar enquanto rabisca em seus cantos suas gotas secas de mil-sentimentos-em-mim-estar, quer jogar e cantar, ouvir a sonora tonalidade da música ao fundo da parede por onde roda o ”Elever-disc-player” Dança, dança até se cortar… Se cortar dessa vida que ela mesma sabe cantar. Gabriella de giz, que vida é essa, que quando chove se rabisca, que ao café se limita? Gabriella… Ô Gabriella, cadê seu casulo? Cadê os pés cortados? Aonde foi parar… A sua música?
Era uma linda maçã, como nenhuma outra jamais se atrevera a ser. Theodore Althoff sentiu um misto de pena e culpa ao mordê-la. Andara com a mente cheia de pensamentos pesados, e utilizar tal materialização de formosa beleza frutífera como alimento apenas piorou sua condição. Não foi somente a aparência que o deixou admirado, era também doce como o mel, e pingava de tão suculenta, tal qual uma grossa fatia de nobre carne mal assada sangra ao ser mordida. Ressoava como um trovão ao desprender-se em generosos pedaços. Por suas delicadas curvas, mostrava-se da cor do sangue, e brilhava em tons de prata, seu interior era tão claro e puro quanto sonhos de crianças. Tinha o tamanho de dois punhos cerrados, como os que fazem preces aos deuses. Comparou-se com Adão, saboreando a maçã do Éden. Sor Theodore era habitante antigo daquelas terras, e sabia muito bem o que isso significava. Por melhores que fossem, deliciosos frutos eram presságio de um evento temido pelos moradores da província. Repetiu para si mesmo as duras palavras de sua casa: ”O verão está chegando”. —
Carlos Althoff.
hannah makes dreams here (by come wind come rain)